Dicas – Parte 1: Como se manter seguro no trânsito

Por Willian Cruz, em 30 de setembro de 2004

Vai trocar o carro pela bicicleta, uma vez por semana que seja? Parabéns! Você vai chegar no seu destino cansado mas feliz. É sério! A endorfina liberada pelo exercício físico vai fazer você ter um dia melhor no trabalho. Só por não ter se estressado em esperar aquele sinal que abriu e fechou três vezes até que os cinco carros na sua frente passassem (te deixando para trás), já vai fazer uma diferença enorme. Você vai queimar aquelas gordurinhas que insistem em continuar aí, por mais que você reze para São Regime. Vai economizar combustível e provavelmente vai até chegar mais rápido. Vai melhorar sua capacidade respiratória e correr menor risco de infarto.

Se você continua lendo, ótimo, talvez eu já tenha te convencido. Mas se acha que essa coisa de bicicleta não é para você e quiser continuar andando de carro, tudo bem. Continuo sendo seu amigo. Apenas peço que continue sendo meu amigo também: na próxima vez que estiver de carro e me vir de bicicleta, ultrapasse a uma distância segura e dê uma buzinadinha simpática, que eu retribuo o cumprimento.

Se você decidiu adotar a bicicleta, ou está pelo menos pensando se isso é possível ou não, eu escrevi uma série de artigos para te convencer que isso é possível – e te ajudar nessa tarefa. Neste artigo, eu vou dar dicas de como se portar no trânsito. Eu sei que você já é crescido e sabe atravessar a rua, não é isso. Eu quero ajudar você a não correr riscos desnessários e a desfazer a idéia de que pedalar junto com os carros é coisa de maluco. É viável, desde que você tome os cuidados necessários. Como tudo na vida.

Capacete: indispensável, ainda mais pra andar no trânsito. Se você passa num buraco e cai, mesmo devagarzinho, corre o risco de bater com a cabeça no chão e vai ter um traumatismo craniano que pode ser grave. Não quero isso para ninguém. Há quem seja contra o uso de capacete, mas eu acho muito importante.

Luvas: não são imprescindíveis, mas convém usar, por dois motivos principais. Primeiro que se você não usar, a manopla vai comendo sua mão e você pode ficar com a palma da mão ardendo e até com bolhas. Com a luva isso não acontece. Segundo que se você cai, sempre tenta parar a queda com a mão e vai esfolar ela toda se estiver sem luva. No frio, luvas de dedos fechados tornam-se importantes para suas mãos não enrijecerem com o vento gelado, o que pode atrapalhar bastante se você precisar frear de repente.

Ande sempre pela direita e na mão dos carros. Há várias razões para não andar na contra-mão e todas elas visam sua segurança. São tantos motivos, que renderam um artigo exclusivo para esse assunto. Mas vou citar aqui as principais.

Um pedestre que vai atravessar a rua só olha para o lado de onde vêm carros. Um carro que vai entrar em uma rua, também. Ele não espera uma bicicleta vindo na contra-mão. Um carro fazendo uma curva à direita não espera uma bicicleta vindo na direção contrária no lado de dentro da curva. Um motorista que estacionou e vai abrir a porta, olha só no retrovisor para abrir a porta, não olha para a frente. Um carro saindo de uma vaga onde está estacionado, idem.

Além disso, a velocidade em que você se aproxima de um carro é muito maior se você estiver na contra-mão, porque ela é o resultado da soma das velocidades dos dois veículos. Se você está a 20km/h e o carro a 40km/h, você estará se aproximando dele a uma velocidade relativa de 60km/h. O carro vai ter menos tempo pra reagir à sua presença e desviar de você, fora o fato de que uma colisão nessa velocidade faz um bom estrago. Se nesse exemplo você estiver no mesmo sentido do carro, a velocidade relativa entre ambos será de 20km/h: o carro tem mais tempo para desviar e a chance de colisão diminui. E, numa possível colisão, o estrago será menor. Claro que eu espero que ninguém descubra isso na prática, por isso é melhor confiar na matemática! :)

Cuidado com as portas dos carros parados. Muito motorista olha no retrovisor procurando o volume grande de um carro e não vê a magrinha bike chegando. Ou olha em um ângulo que faz a bicicleta ficar em um ponto cego. Ou é distraído mesmo! Tem gente que abre a porta com tudo, empurrando com o pé. Por isso fique a uma distância que se algum distraído abrir a porta ele não te derrube. Fique a pelo menos um metro dos carros parados. De preferência, ocupe a faixa seguinte. Preste atenção se há pessoas dentro deles, se o carro acabou de estacionar, se está com as lanternas acesas. Se o motorista ameaçar abrir a porta, grite “portaaa!”, geralmente ele percebe e a puxa de volta.

Não ande com a bike muito colada na direita, em cima da sarjeta, senão os carros vão tentar passar na mesma faixa que você, mesmo que não haja espaço. Você pode desequilibrar e cair só com o susto, sem falar no perigo de um esbarrão. Eles são obrigados pelo código de trânsito a passar a 1,5m de você, mas não sabem disso porque não é ensinado na auto-escola. Ande mais ou menos na linha de um terço da pista, assim não fica tão antipático quanto ocupar a pista toda , você tem espaço para desviar de buracos sem ter que ir mais para a esquerda e, principalmente, os carros vão ter que esperar até ter espaço suficiente para te ultrapassar pela outra faixa, sem te colocar em risco. E mesmo que te fechem, você ainda terá um respiro para fugir para a direita sem ter que se jogar na calçada. Leia mais sobre por que (e como) ocupar a faixa.

Mas seja compreensivo com os motoristas: quando você passar por um trecho considerável onde não houver carros parados, dê uma recuada para desafogar a fila de carros atrás de você. Assim, aquele motorista que está atrás de você há alguns minutos sem conseguir te passar vai embora antes de ficar nervoso. Apesar de você estar no seu direito, muitos motoristas não vêem assim e se irritam com sua presença, esquecendo que a rua é de todos e não apenas dos carros.

Sempre sinalize o que vai fazer, com sinais de mão. Peça passagem, dê passagem, sinalize que o motorista pode passar quando você parar para esperar ele, avise quando você for precisar entrar na frente dele por causa de um carro parado e espere para ver se ele vai parar mesmo. Agradeça se ele parar ou te der passagem. Respeite e será respeitado.

Um ciclista educado é melhor recebido pelos motoristas. Motoristas são bem suscetíveis a abordagens educadas. Quantas vezes já não vimos um motorista, que está se posicionando para não deixar outro entrar na frente dele, ceder quando o primeiro faz um simples sinal com a mão? Pois esse sinalzinho de mão, acompanhado de um sorriso e seguido de um sinal de agradecimento, faz milagres… Muitos que estiverem te vendo como “um folgado ocupando a rua” vão pensar “pô, pelo menos o cara é educado”. Já é alguma coisa e pode ser a diferença entre uma situação de risco ou não. E esses motoristas passarão a tratar melhor o próximo ciclista que eles virem. Ou seja, com boas maneiras no trânsito você acaba ajudando a todos nós.

Evite as grandes avenidas. Em São Paulo, por exemplo, as marginais e a 23 de Maio, nem pensar. Já a Av. Brasil é mais tranqüila e a Faria Lima também dá pra pegar, mas é melhor optar por algumas ruas que ficam entre essas duas avenidas, principalmente quando estiver começando a se aventurar no trânsito. E em horários de pico, fica difícil trafegar em qualquer grande avenida, porque tem pouco espaço para os carros e fica difícil passar até de bike. Procure ruas menores, que os carros evitam porque têm que parar a cada esquina, porque tem lombadas ou muitos sinais. O que é ruim para os carros, muitas vezes é bom para as bicicletas. Não pense no trajeto como se estivesse de carro. E, se não souber que trajeto fazer, procure a Bicicletada de sua cidade e peça algumas dicas.

Como regra, se você estiver com medo de pedalar em certa avenida, melhor não fazê-lo, até porque se você estiver inseguro pode cometer algum erro bobo, como se desequilibrar por exemplo. Avenidas onde o fluxo de carros segue a uma velocidade alta mesmo na pista da direita são desaconselháveis. Fuja de avenidas assim. Ruas menores são mais seguras e mais agradáveis, mesmo que o percurso aumente um pouco.

Calçada é para pedestres. Se precisar passar pela calçada ou atravessar na faixa de pedestres, o código de trânsito manda desmontar da bicicleta, como os motociclistas (conscientes) fazem (art.68, §1º). E essa lei não é apenas uma regra arbitrária feita por quem nunca andou de bicicleta, há motivos suficientes para não andar na calçada com a bicicleta. Os pedestres que estão de costas para você podem dar um passo para o lado sem te ver chegando. Um carro pode sair de dentro de uma garagem de prédio e te acertar em cheio, ou aparecer na sua frente de um modo que você não consiga desviar. E o errado (e machucado) vai ser você…

Idosos morrem de medo de bicicleta na calçada, porque eles têm um compreensível medo de se machucar, sobretudo aqueles que estão em uma idade em que um osso quebrado pode ser impossível de ser consertado. Se você passar com a bicicleta na calçada perto deles, eles vão te xingar e estarão com toda a razão. Comparativamente, é o mesmo que um caminhão vir na sua direção e desviar na última hora. Eles podem cair só com o susto de ver a bicicleta chegando.

Quer mais um bom motivo para não andar na calçada? Uma criança pode aparecer correndo de dentro de alguma casa. Já pensou ter na consciência o atropelamento de uma criança de três anos? Péssimo, né? Melhor não correr esse risco. Fique sempre na rua. Se quiser passar pela calçada, desmonte e vire pedestre.

Cuidado nos cruzamentos. Não passe sinal vermelho com a bike, porque um carro pode vir rápido para aproveitar o sinal amarelo e você errar o pé no pedal na hora que precisar fugir dele com pressa. Ou pode aparecer um pedestre atravessando a rua correndo, olhando só para o lado de onde ele espera vir o perigo.

A pista de ônibus costuma ser perigosa. Em faixas exclusivas para ônibus, alguns não são muito pacientes com ciclistas, porque terão que sair da pista exclusiva para te ultrapassar e, quando o tráfego está intenso, isso é bem complicado para eles. Quando o trânsito aperta, os carros não dão espaço para um ônibus que queira sair da faixa exclusiva, então só lhes resta apertar o ciclista. Se o trânsito estiver pesado e o fluxo estiver lento-quase-parado, é melhor tentar trafegar pela pista da esquerda (desde que seja uma via de mão única, claro). O código de trânsito dá respaldo a essa atitude. Ou tente usar a segunda pista (a primeira após a faixa de ônibus).

Em esquinas onde muitos carros viram à direita, tome cuidado adicional. De vez em quando, um carro que está na segunda pista vira rápido numa rua à direita, porque lembrou disso na última hora ou porque não deixaram ele mudar de pista antes. Quando ele calcula rapidamente se vai dar tempo, só analisa os carros que estão vindo. E se um carro der passagem, ele entra. Mesmo que tenha visto o ciclista chegando, ele pensa “bicicleta anda devagar, dá tempo” e entra. Às vezes o cara da primeira pista mesmo, que está do seu lado, pensa isso e corta sua frente. Por isso, quando você vir que muita gente vira em algum lugar à direita, sinalize com a mão que você vai seguir reto, ou peça passagem com a mão. Sempre com a mão esquerda, que é aquela que os carros vêem.

Sempre se adiante ao que os carros podem fazer. Olhe para trás para ver se não está chegando um maluco voando para entrar na rua que está 5 metros à sua frente. Veja se o trânsito está parando em uma única faixa, o que faz os carros fugirem irritados dela.

Sinalize para que os carros antecipem o que você vai fazer. Não fique fazendo zigue-zague, não entre sem olhar numa avenida, não mude de pista sem avisar, mesmo que o motorista esteja lá atrás. Do mesmo modo que ele pode calcular mal sua trajetória e achar que vai dar tempo de passar na sua frente, você pode se enganar ao achar que vai dar tempo de mudar de pista. Se você sinalizar, o carro diminui. Veja e seja visto.

Para saber o que o Código de Trânsito diz sobre os ciclistas, clique aqui.

Texto revisado em 28/08/2009.

http://vadebike.org/2004/09/dicas-para-o-ciclista-urbano/

Quer divulgar esse texto? Ótimo!

Faça um link para cá ou, se quiser reproduzir o texto em algum lugar, fique à vontade. Apenas cite o autor (Willian Cruz) e dê link para esta página.

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Sobre saxmozartfaggi

Ciclista desde 1974, por gostar de ser ciclista, mas em minha cidade não era difícil percorrer 10 a 15km com montanhas que são predominantes, mas o único impecílio era a irresponsabilidade dos motoristas. Dá para se ir ao seu emprego de bike, basta apenas ter um pouquinho de tempo a mais e uma roupa para trocar. Muitos já trocaram o carro pela bike, por ser econômica, gasósa e academia, e por as vezes, serem melhores para estacionar e ir de um ponto a outro... isso é fato. Demoro 25min para chegar ao centro de SBC, mas depois que lá estou, qualquer caminho para mim é mais rápido do que um carro, menos perigoso que uma moto, isso é fato!
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